A NOITE DE TORMENTA DOS DEMENTES
Colmar Duarte
   

 

O coitado era louco... 
Descansou.
Que Deus o tenha em sua santa glória!

E vão aparecendo na memória
cenas que o tempo há muito ultrapassou.
Não há quem, por mais quebra ou irreverente,
saiba esconder esse amargor que sente
perante a ausência que a morte deixou.

A vida é diferente a cada qüera;
Ninguém pode saber o que o espera,
cada um a pelear por melhor sorte.
E depois... o vazio... o imenso nada!
Para mostrar-nos ao final da estrada:
Todos somos iguais diante da morte.

Coitado!
Era louco... descansou!
Que Deus o tenha em sua santa glória!
Mas... e as almas dos loucos...
vão para o céu?
Só será louco o corpo que ficou?

Talvez chegando lá conte sua história
que Deus, que tudo vê, sabe de cor:
- Eu fui bom como manda o evangelho,
tive a vida feliz que te pedi;
Fui tropeiro e andei desde guri
esperando morrer tropeiro velho...

Era noite de chuva
e a tormenta açoitava na ronda a tropa inquieta,
a estralar o arreador dos raios,
a reponta-la no assovio do vento.
Havia a inquietação do mau agouro!
A luz de um raio, que clareou o pampa,
se divisou o gado em movimento.
E logo a avalancha do estouro...
o assustador crescer do bate-guampa!

Quem viveu sempre junto do perigo,
em lida ou luta nesse chão farrapo,
acostumou-se às emoções violentas;
E não assusta a fúria das tormentas
um homem que nasceu para ser guapo.

O pingo firme no freio, ouvido atento,
aos gritos de volta... volta... volta!...
como um centauro cego ele se solta
guiado pelo instinto e pelo vento.

De repente, o abismo da bolcada!
Um redemoinho... e o céu desmoronando.
A chuva... o barro... a dor...
depois o nada!
a escuridão da noite se espelhando
no escuro que desceu em sua mente.

O tempo foi rodando indiferente...
O sol voltou, ponteando um novo dia,
mas o tropeiro já não voltaria
da noite de tormenta dos dementes!

Quanto andou entre os vivos?
Não sabia,
pois já não mede o tempo,
um pobre diabo!
O tempo é vida e lhe faltava o juízo.
Para medir a vida era preciso
estar entre a esperança e a saudade.

O coitado era louco!
Descansou.
Para viver assim... foi bem melhor.
Que Deus o tenha em sua santa glória!

Talvez chegando lá nem saiba a história,
que Deus - que tudo vê - sabe de cor!...

 

Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
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