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Colmar
Pereira Duarte
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Pedro Veloso está preso. Sentado à um canto da cela rumina recordações... ...
que é verdade que às dez horas do dia 15 de outubro... Na
sala grande do júri, dos
olhos de toda a gente transparece
acusação ...
branco, brasileiro, viúvo, cinqüenta anos, trabalhador rural... Sobre
a parede, ali em frente, estaqueado
por três pregos, pende
um homem de uma cruz... ...
que reconhece esta arma como sendo a encontrada em seu rancho... Assassino
sanguinário!
- Vai
a voz do promotor pedindo
reparação à
sociedade ofendida... Mas
quem saberá de ranchos nesse
tribunal povoeiro, onde
seu traje campeiro parece
rude e estranho aos
costumes dos demais Em
pé, no centro da sala, golpeou
seu peito a sentença: dez
anos de reclusão! Nada
mais ouviu depois... Sobre
a parede, ali em frente, um
homem morto na cruz, a
sala cheia de gente e ele só... As
algemas, os fuzis... as
grades cortando os passos e
o tempo para pensar. “Eu
nasci no Touro-passo me
criei no Aferidor sentei
praça no oitavo não
quero ser desertor...” Carregava
consigo essa quadrinha quando
fora pelear longe dos pagos. Quando
a guerra, cruel e insaciável, exigia
sangue de outros povos em
holocausto à ambição do homem.
a
farda em vez da roupa campeira; a
morte perdurada nas granadas parecendo
inocentes boleadeiras; o
batismo de fogo das peleias no
mais pagão altar de sacrifícios, das
montanhas desciam como lava; os
obuzes varrendo gente e neve, o
terror animal saltando aos olhos e
a metralha esbanjando carne e sangue. No
festim da chacina irracional o
desespero... a neurose... os mutilados enchendo
os hospitais, na retaguarda. E
na frente o revide incentivado: matar!
matar! matar! Quando
a guerra acabou, a volta aos pagos. As
fanfarras às glórias conquistadas. Nas
medalhas, o reconhecimento à
bravura nos campos de combate. Medalhas
por matar! Por
matar gente às vezes indefesa e inocente, jogada
numa guerra de outra gente! Como
entender? Como
enterder estas razões da guerra, que
menosprezam a moral campeira, se
se criara a curar bicheiras e
a socorrer os que ficaram guaxos?... Como
entender a glória conquistada por
quem mata ou quem morre, simplesmente
porque fala ou se veste diferente, se
se criara nos galpões de estância entre
pretos, mulatos e estrangeiros, beijando
a mesma bomba, Como
entender a escala de valores baseada
na raça, credo ou vestimenta, se
se criara neste pampa vasto vendo
os bichos em paz e harmonia mediando
a mesma água e o mesmo pasto? ...
e as medalhas de reconhecimento da
mesma sociedade, ora ofendida porque
matou pra defender seu rancho, ninho
dos piás que se criaram guaxos peleando
contra a sorte, numa guerra que
é sua e não foi feita oficialmente. “Eu
nasci no Touro-passo me
criei no Aferidor sentei
praça no oitavo não
quero ser desertor!” |
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Galpão
da Poesia Crioula - Santa Maria/RS |