CISMAS DE ESPERA
Joel Capeletti
Bem ao tranquito
E bem mais calados
Andam esses dias de abril!...
Quieto e soturno,
Com mansos braços para o dia,
O sol abre a auréola para velar
O cimo do coxilhão.
Um tajã matreiraço,
Dono do açude da frente,
Alça um vôo lento e gracioso!...
O bichará-horizonte,
Tramado verde-azul,
Mede a largueza dos campos,
A prenhez dos capões,
O rumor da sanga ligeira
E a semeadura dispersa de espinilhos.
- Meus olhos,
Campeadores e agudos
Qual adaga em peleia,
Agrandam as pupilas
E marejam fartos
Sob a mão de aba larga
Para o sombreiro das retinas.
Manhazita...
Uma enxaguada na gamela...
Tição e cambona de mãos dadas...
Dois ou três mates e um upa!...
A vida atropela quando a alvorada
Acorda e a imensidão vem pintar
A aquarela de um novo dia.
A cada manhã sonora,
Quando camboneio os mates,
Minh’alma rebusca este quadro
De matizes perdidas...
Era linda a pintura
No claro painél da estância.
O galpão, a casa grande
E a fronde de um solito jacarandá.
Dois viçosos cinamomos
E a brandura dos ventos.
Hoje,
Um velho esteio de pé...
Tal um velame de solidão.
Jacarandá e cinamomos
Desnudos de flores e folhas,
Agourados pelo outono e verão.
São quais monstros da noite
De severa tônica nas garras.
Assim
parti, bem me lembro.
Uma lágrima salgava o meu gosto.
Seria um novo caminho.
O pingo de tiro e a rasa malita,
O puído dos trastes e o vento
Atorando as melenas.
Agora,
Ando com esta imagem no olhar.
Vagando pleno de cismas,
Total de ausência e espera.
Olhos de estrada e pranto,
Dias de abril em acalanto,
Sonhos em noites de quimera.
- Ainda escuto a voz da tapera!
Um chamado em canção de ninar,
Orando no abandono,
Na esperança que o dono
Possa, algum dia, voltar.
Assim ficou meu rancho...
Lembrança!...
Mudada, pois mudou-se o dono.
O tajã alçou um último vôo,
A caçimba turvou de silêncios
E o joão-de-barro se foi
Num adeus de abandono.