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DE VOLTA AO PAGO
Telmo de Lima Freitas
Feições de gente sofrida
jeito de homem campeiro,
bombacha de pelar pinto,
uma bota de garrão
pediu licença pra todos,
boleou a perna e apeou.
Pelos traços, caborteiro,
um bigodão de respeito,
olhando meio por baixo
d'um "sombrerito" barroso,
pela cor, muito surrado,
igual ao dono talvez.
Se dirigiu de vereda
ao bolicheiro gordacho,
pedindo meia garrafa
de cachaça misturada
e dois dedos de purita
para espantar o calor.
Caladão de pouca "seca"
perguntou, meio pra todos,
quantas léguas se gastava
para chegar "de a cavalo"
no rincão denominado
Passo do Itacurubi.
De veredita um afoito,
muito pronto e voluntário,
mostrou c'o cabo do mango
a direção d'um atalho,
donde daria certito
no dito cujo lugar.
Mil gracias! Quanto lhe devo?
indagou meio sem graça
ao bolicheiro ladino,
conversador como o diacho,
mas prestativo pra todos
que passavam por ali.
- Nada lhe custa, amigaço.
- Quem sabe mais algum vício?
Parece que adivinhava
que os cobres do forasteiro
mal cobriam a despesa,
não sobrando nenhum "real".
O taura, desenchavido,
bombeando para o cavalo,
ofereceu para todos
uma adaga pura prata,
enfiada por entre as garras,
com o cabo à "mão de semear".
Empenho por qualquer preço,
- retiro quando puder -
minha "lombo de vareta",
só desmancho as iniciais.
Eu carrego justamente
pras horas de "percisão".
Um rapazola pilchado
com ares de fazendeiro
encarou pro forasteiro,
falando sem titubear:
- pode gastar à vontade,
não venda um ferro de lei!
Deveras, meio sem jeito,
sem saber por qual razão
era tratado por todos
como gente do lugar.
Resolveu "floxar" a língua
num estilo todo seu.
- Senhores, se me permitem,
vou descartar as tristezas
neste resto de domingo,
já quase ao anoitecer.
Venho chegando do povo,
tenho muito pra contar.
- Sai daqui gurizito,
inclinando pr'os arreios,
quem sabe até não daria
mais tarde pra domador?
Resolvi bater matraca
campeando o que não perdi.
Vi coisas do arco da velha,
só vendo pra acreditar...
Lote de gente nas ruas,
mãos no bolso, almofadinhas,
proseando e dando gaitadas,
pelo jeito mui vadios.
Alguns com jeito de homem,
outros com tipo esquisito,
me bombeavam de bombacha
empeçavam a cochichar
como se eu fosse estrangeiro
chegado de outro país.
Comecei campear trabalho,
tão logo me coloquei.
Pra um homem que se defende
não existe ponta ruim.
Os cobres não aparecem
pra quem não quer trabalhar.
Assim passei muitos anos,
mas nunca me aclimatei.
Não existe igual ao pago
isso posso garantir,
por isso venho a cabresto
e não tenciono voltar.
Vou fazer tudo de novo
no lombo do meu cavalo.
Me sobra força nos pulsos
para o que der e vier.
Lastimo, porque no rancho
não vou achar mais ninguém...
-Gauchada como essa,
lhes digo, só por aqui.
Vou convidar o meu ruano,
vou gastar o que me falta,
e contem com um amigo às ordens
no Passo Itacurubi.
-Bota dois dedos de pura
porque preciso chegar!...
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