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DO SONHO VERDE-AMARELO
Julio Cesar Paim


Quantas noites de insônia
Campeando o sono perdido
Nas madrugadas escuras!...
Ouço o murmúrio do vento
E, já num último alento,
Minha alma se transfigura.

Se vai o sono matreiro!...
E a madrugada me chama
Pra fazer o chimarrão...
Na bomba-lança dourada-
Vejo a bandeira hasteada
No verde pampa ilusão.

Junto ao fogo da lareira
A velha chaleira preta
Choramingando sem cessar!...
O chiado vem do passado,
No rodado das carretas,
Fazendo o tempo voltar!
E num upa eu volto à infância
Pra recordar lá na estância
Meus doces tempos de piá!...

Eu nem sabia escrever
Quando aprendi a razão
Das cores do pano sagrado!...
O verde: Eram campos...
E bosques encantados!
O amarelo: ... O pau Brasil!...
...O ouro... o sonho dourado!
O azul: ... As veias de um rio sem ilusão
Tingidas de anil...
E o branco: Era a paz!
(enrolada no algodão)...

Era assim na minha infância!
Onde eu fui senhor de estância
E aprendi cuidar do gado
De osso (e sonho), encantado!...
Ah! E as tropilhas de cará:

Baios... ruanos... malacaras...
Belos potros de taquara
Nos quais aprendi a domar!...
E eu também fui combatente
Defendendo o continente
Com espada de girivá!...

Com quatro lápis de cera
Pintei milhões de bandeiras
Pra demarcar meu país!...

...E delas fiz meu alento,
E por elas
Eu fui um guerreiro, ao vento,
E sem saber fui feliz!
E quantas expedições
Tiveram que regressar,
Porque tentaram roubar
As bandeirinhas que eu fiz!...
Mas o dia vem clareando
E “os pauzinhos estão boiando”
Na cuia de chimarrão!...
Nem percebo a água fria
Afogando minha agonia
Nesse poço de ilusão!

A erva verde de outrora,
Vai ficando negra agora
Desmoronando, afinal...
E a silente alvorada
Testemunha apavorada
Esse triste funeral!...

Vai morrendo o sonhador...
Vai morrendo o mateador...
Vão tombando soterrados
Pelos resto do passado
Que vai matando-os ao relento,
Não fosse a bomba dourada
Uma bandeira encantada
Que os lança de novo ao vento!

E os dois: mateador e sonhador,
Empunhando a mesma lança,
Voam livres na lembrança
Tentando mudar o destino...
Como se fossem meninos
Pintando de novo
A bandeira da esperança!

Pena que hoje o sonho
Esteja tão desbotado,
E o pano verde-amarelo
Já não signifique mais nada...
Hoje são apenas quatro cores
Resistindo aos invasores
Numa nação pobre e explorada...

Os” homi” levaram tudo!...
Levaram nossos tesouros:
Nossa prata... nosso ouro,
Levaram nosso algodão!...
E até o índio primitivo
Se tornou um atrativo
E morreu por esse chão!...

...Levaram o pau-brasil...
E pra aumentar minha insônia
Estão levando a Amazônia
O pulmão verde do Brasil!...

Já levaram quase tudo...
Só resta esperar agora
Que abram nossas fronteiras
A estilhaço de canhão,
E roubem dessa nação
A bandeira brasileira!...

Quando isso acontecer
Não estarei mais mateando
Para afagar o meu sofrer,
Por certo estarei peleando
Pelo chão onde nasci!...
E já posso pressentir
Minha hora derradeira
Abraçado à bandeira
(Eterno e último abrigo)...

Só assim poderei sentir
O infortúnio do inimigo,
Ao vê-la tombar comigo
Desbotada ensangüentada...
Nessa terra encarnada
Pelo sangue Guarani!...

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Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
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