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DOS
QUE SE FORAM
Carlos Omar Villela Gomes
Tudo parte de um fogo quase extinto e uma pequena cruz
Onde um rosto sofrido parece me olhar...
Já não há dor, mas sim uma saudade mansa
Que não me abandona nem me deixa esquecer.
Os semblantes, um a um se perfilam e me desvendam...
Se entregam à mim como se esta noite fosse a vida
inteira
E a vida inteira fosse apenas um suspiro de lembrança e
paz.
Vô Carlos, sentado no escritório, numa prosa truncada
com o Seu Aldo,
Que tranqüilo, vai picando fumo até o instante marcado
pra se ir.
Meu Vô era assim, meio fechado, um rosto sisudo, pouca
prosa,
Mas por certo com um grande coração...
Estancieiro forte, calejado,
Com ares de potro indomado
Que consigo haverá de ter levado
Pras lonjuras da outra dimensão.
Seu Alcides, amigo velho, senta ao meu lado,
Abre um sorriso, e num instante me aperta a mão...
Falamos das tantas coisas do passado,
Das prosas, das histórias, e principalmente dos finais
de semana
De visita e mate, que inevitavelmente terminava sempre
igual:
“- Mano, por favor nos traz um Granja União e duas
taças,
que um pouco de vinho com os amigos amansa o coração e
só faz bem.”
E lá se iam pra mais de seis garrafas, até chegada a
hora de seguir .
Vó Esther, minha bisa, que saudade...
Corpo curvado pelo fio dos anos
Mas as mãos firmes navegando o piano
Sempre que um neto lhe queria ouvir.
O eterno bingo dos aniversários
Que ela ganhava com louvor e festa
Quase sempre com a cumplicidade
De quem, batido, lhe cedia a vez.
E por certo o nosso maior prêmio
Era ver seu sorriso de alegria
Frente aos rostos coniventes da família,
Pois não tem preço um momento assim.
Vó Helena, minha outra bisa, tão distante, tão presente,
Um grande amor que ultrapassou fronteiras
E ainda hoje continua aqui...
A Gija, sempre com segredos,
Sempre vestida com seu chambre gasto...
“Um trocadinho, meu filho, pra o cinema
ou então pra um guaraná no japonês...”
Estranha a vida que nos cria, que nos traz ao mundo,
Que nos dá o dom de amar e de repente nos rouba aqueles
que amamos,
Só deixando a saudade, um sem fim de lembranças,
Umas fotos já gastas, umas cartas trocadas,
E nos olhos um pranto, que se vem, sem querer.
Mas a vida também reserva o bem, o sonho, e outro tipo
de amor
Nos dá alento e carinho nos braços de alguém ...
E desse carinho floresce a ternura que só um filho nos
traz.
(É estranho procurar nos filhos os traços antigos de
alguém que se foi, e encontrar...)
Vô Omar que nunca vi até este instante
Mas que sempre me acompanha, até no nome...
Convivência que a vida me negou
Sentimento que sempre vai ficar...
Quantas vezes me pego nos retratos
Aonde figuras distraído...
Mas agora com todos meus sentidos
Te tenho aqui comigo, meu Vô Omar.
Vó Sarita, olhar de campina se achega tranqüila ao meu
lado..
Me oferece um mate, comenta da vida e diz alguns versos,
Falando dos filhos, dos sonhos perdidos,
Da casinha do campo coberta de hera,
Das flores cheirosas, das estrelas mais lindas
E das coisas que a vida pode ter de melhor.
Assim era ela, tão simples, tão pura como as suas
poesias
Mais um mate , talvez, me oferece
E eu de rosto molhado recebo essa cuia
Como fosse um regalo do seu coração.
Assim era ela, correr de regato,
Que entra no mato e abre caminho até se perder...
Vó Djanira, de janeiro como eu, também se achega no seu
passo manso,
Vinda de onde, eu nem tenho idéia,
Mas com o mesmo olhar, a mesma voz e o mesmo amor:
“- Quer um café, meu netinho, um bolo ?
- Quem sabe uma chimia de goiaba que a Bedinha fez no
Plano Alto
E deixou guardada só pra ti...
Um cafuné quem sabe, um matezinho
Pra gente colocar o assunto em dia...”
Então neste momento de alegria eu tive minha vó juntinho
a mim.
Ainda me lembro a última vez que à vi em vida
O corpo cansado e judiado pelos anos...
As mãos trêmulas, as pernas frágeis,
Mas o mesmo olhar de luz que me alumiou a infância
E até hoje brilha (minha estrela guia a flutuar no céu).
Olhei pra ela misto dor e ternura,
E as palavras brotaram sem querer...
“-Eu te amo minha vózinha...”
Num só momento o rosto pálido se encheu de brilho
E me respondeu no mesmo tom,
Quase sem abrir a boca desdentada:
“-Eu também te amo, meu querido...”
E foi a última vez que vi minha Vó.
Um a um se achegaram e partiram
Trazendo um pouco daquilo que já fui,
Levando um pouco daquilo que hoje eu sou...
Saudade, vai ficar, mas sempre boa
Pois o rosto da cruz nos abençoa
Neste sonho de alma e comunhão;
Adeus meus queridos, meus amados...
Levem consigo minha fé mais pura,
De que vocês, em outra noite escura
Junto ao fogo e à cruz, ressurgirão!. |