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FRONTEIRAS
Colmar Duarte


Apareciam assim,
vindos do nada,
Apontando no alto da coxilha;
Como nascendo desse pampa aberto.
Sem aramado que barrasse o passo,
(nem os caminhos tinham rumo certo!)
cortavam campo
reinventando atalhos,
riscando mapas neste chão deserto.

Das querências traziam os aperos,
testemunhando sua procedência.
Pelegão largo, quando missioneiros;
Arreios curtos, quando da fronteira.
O toso do cavalo, a "cogotilho"
Ou "cabo de machado" ou "meia-clina",
Falava mais que um roto documento
Por acaso encontrado na guaiaca.
Bombacha larga, chapéu desabado,
Botas de fole e a mula de cargueiro?
Era o biriva
Cheio das patacas,
Comprando mulas pra levar pra serra.
Um basto sem cabeça, por lombilho,
O buçalete, o freio "coscojero",
O chapéu curto, a rastra, a corralera?
Denunciavam quem vinha da fronteira.

Independente dos anais da história,
O mercosul é coisa relambória,
A integração se fez de contrabando.
Muito depois das tropas dos pioneiros
- de Cristóvão Pereira e Orellano –
os crioulos relincham correntino
e os Hereford têm berro castelhano.

Por andar, se mudaram horizontes.
Os gaudérios cruzaram rios e montes,
Levando a adaga por salvo-conduto.
Índios, mestiços, lusos, castelhanos,
Abriram rumos
Sem levar bandeiras
Que demarcassem posse do chão bruto;
Povoando a terra sem criar fronteiras
Pras patas dos cavalos dos vaqueanos.

Por isso é que o gaúcho é raça andeja;
Nasce do campo
E onde quer que esteja,
É um nativo sul-americano.
Fez a cavalo a história desta terra:
Na culatra das tropas, quando em paz;
Na vanguarda das lanças, quando em guerra!

Quem inventou fronteiras e divisas
Não conhecia as aves e os ventos.
Nem aprendeu com o sol e as estrelas
Que a liberdade é mais
que um documento;
que por andar
se alargam territórios;
que um fogo-morto ou uma cruz-de-estrada
dizem mais do que notas registradas,
com nomes e traçados,
nos cartórios.

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Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
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