e
alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas
eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os
homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio;
as
mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os
homens usavam barbas e picavam fumo em rama;
as
mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os
homens iam ao clube, as mulheres à missa,
e
homens e mulheres aos velórios.
Morriam
discretamente e ficavam nos retratos.
Naqueles
tempos, sim,
naqueles
tempos
a
igreja tinha santos nos altares
e
havia mulheres rezando ao pé dos santos.
O
padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava
crianças, encomendava os mortos,
rezavam
a missa em latim: "Agnus Dei"...
e
comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os
homens ajudavam nas obras da igreja,
mas
acreditavam mais nas armas que nos santos.
Naqueles
tempos, sim,
naqueles
tempos
os
chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam
seus galões debaixo da fumaça
em
peleias a pata de cavalo,
garruchas
de um tiro só e espadas de bom aço.
As
mulheres plantavam flores e temperos
pois
tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam
receitas de panelas fartas,
faziam
velas de sebo e tachadas de doce
e
de graxas e cinzas inventavam sabão.
Naqueles
tempos, sim,
naqueles
tempos
os
bois mandavam nos homens,
e
por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada
de ventos, chácaras e estâncias.
Os
touros cumpriam devotamente o seu mister
e
as vacas, pacientes,
pariam
terneiros e terneiros e terneiros.
O
campo engordava os bois,
as
tropas de abril engordavam os homens
e
os homens engordavam as mulheres.
Por
isso a cidade chegou até aqui.
Por
isso estamos aqui
-
netos e bisnetos desses homens,
dessas
mulheres, netas e bisnetas.
Por
isso um berro de boi nos toca tanto
e
tão profundamente.
Por
isso somos guardiões de casas velhas,
almas
de sesmarias e de estâncias,
paredes
que suportam seus retratos.
O
músculo do boi na força que nos leva.
A
barba dos avós como um selo no queixo.
O
doce das avós na memória da boca
e
nela este responso:
-
Naqueles tempos, sim...
naqueles
tempos...
.