Poema vencedor da XIII Reculuta da Arte Nativa

HERDEIROS DE SINA E GLÓRIA
Romeu Lemes Ozório / Carlinhos Lima


Ao sorver o primeiro gole do mate que cevei cedo
senti o sabor da seiva entrar pra dentro da alma...
No terceiro ou quarto gole me perdi em devaneios...

Ouço vozes ancestrais gritando dentro de mim,
reacendendo o brazedo do fogo-de-chão da história.
A voz do vento, nas frestas, ressoa no pensamento...
Da janela da memória esporeio o inconsciente
E indago aos meus sentidos se as lutas valeram a pena...
Nas paredes velhos trastes... as armas enferrujadas...
e retratos de avós centenários
com interrogações nos olhos da alma.

“Progresso... progredir é mui lindo!”
A inocência trai e adormece a consciência...
Com o andar das velhas carretas passaram-se os anos
e no ranger gasto dos dias foram gerados estranhos costumes.
Transformações consentidas se fizeram no pago
com idéias contrabandeadas de outras querências.
Manipularam as raízes fazendo acomodações
e o gaúcho, solidário, por bueno se adaptou.
E não sente que enquanto canta epopéias com saudosismo,
herdeiros de heróis anônimos não conhecem o gosto da carne
que prolifera “a la farta” nas sesmarias de um latifundiário.

É necessário render tributos aos antepassados,
que deixaram de herança uma terra bem demarcada
a casco de cavalo, lança e espada em punho,
buscando um sonho que deixamos de sonhar.

Hoje, porém, as armas são outras.
Trazemos a cabresto o cavalo da razão,
mas não o montamos...
Empunhamos a espada liberdade,
a lança igualdade
e a garrucha humanidade,
mas não sabemos usá-las!

Nós, filhos dos filhos daqueles guapos
- herdeiros de sina e glória -
nos identificamos com a ganância da vida competitiva
que não nos foi ensinada por eles.

Hoje competimos até para ver quem melhor canta
as lidas de campo, mangueiras e bretes...

Filhos do mesmo ventre, herdeiros da mesma querência,
alguns tão privilegiados, cruéis sem saber que o são...
E estão de olhos vendados para a miséria de tantos
que nem lembram que foram valentes,
que fizeram história, que foram caudilhos...
Outros nem tem tempo pra lembrar de ideais,
pois estão sangrando o peito numa luta desigual
contra a fome dos filhos...
...os netos dos filhos daqueles guapos.

Como posso lembrar feitos de outrora
- ou cantar heróis montados em belos fletes dourados -
se olho ao meu lado e vejo um taura,
bombachita arremangada,
assoviando pachola com o mesmo entono de um galo...
Pobre peão... já perdeu a identidade...
carregando papelão atrelado a uma carroça
como se fosse o cavalo!

Volto os olhos pro infinito e visto o poncho da revolta,
ao ver os farrapos de hoje condicionados a marchar como tropa,
seguindo um falso sinuelo para um destino sem glória...

O ronco do último mate me desperta
e alerta para a luta, que ainda não acabou...
Encilho o flete e saio para o campo reculutando memórias.

Hoje, não quero apenas falar da bravura de meus ancestrais
e nem cantar chavões literários de duvidosa procedência,
pois os clarins ainda vibram: avançar, avançar, avançar!
E a história ainda chama a descendência farrapa,
- herdeiros de sina e glória -
a cerrarem fileiras contra a inércia,
para hastearmos em nossas consciências
a bandeira da liberdade,
com a mesma coragem e rebeldia
de um Honório em campo de batalha,
como um leão indomável,
buscando um futuro de homens iguais!

                                                                          
Voltar para:  Carlinhos Lima

Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
site: http://www.galpaodapoesia.hpg.com.br     e-mail: galpaodapoesia@ibest.com.br