HISTÓRIA ANTIGA
Colmar Duarte
Seu pai fora bolicheiro.
Por essas razões da vida
Que até mesmo quem mais sabe
Pouco consegue entender,
Depois de andar de agregado
Lavrando campos alheios,
Plantando pra não colher,
Fora virar bolicheiro
- com o que sobrara das secas -
Mais a mulher e os guris.
Embora homem de bem,
Se vira, mais de uma vez,
Às voltas co´a autoridade;
Diz que por contraventor.
É que coimeava uns carteados
(truco, golfo, primera
e até o solo era jogado
nos dias que os mais sabidos
se juntavam pra carpeta!)
Lá pra os fundos do bolicho
Fazia rinha de galos
E também jogo do osso.
Até que um mala-cabeza,
Revolvero e calavera,
Foi charqueado numa briga.
O bolicheiro - coitado! -
Esteve até atrás das grades
Pra desgosto do guri.
Por isso não entendia,
Embora o pai explicasse;
Parece que os homens nascem
Com seus destinos traçados:
Uns pra serem delegados,
Outros pra andarem proscritos.
Quem manda leva no grito,
Quem ouve não tem razão,
Vai por diante - por mais potro.
Se - como dizem os demais -
Nós somos todos iguais...
Tem uns mais iguais que os outros!
Ficou moço olhando estranhos
Cotovelando o balcão.
Se fez homem, isolado
Nesse oásis do bolicho,
No fim do brete deserto
Onde buscavam consolo
Os deserdados da sorte.
Onde peonada de estâncias
E tropeiros, de passada,
Esvaziavam as guaiacas
Pra estufar as algibeiras
E abastecer às bruacas.
Conhecia como poucos
A alma daquela gente,
Pois um balcão de bolicho
É um xucro confessionário,
Onde uns tragos de cachaça
Fazem um maula se ajoelhar,
Mostrando a alma contrita
E até o mais venta-rasgada
Frouxa o lombo e se desarma
Pra chorar suas desditas.
Entendia, de sobejo,
As razões e os desenganos
De quem nasce despilchado;
Cresce para ser mandado,
Vive pisoteando estradas,
Morre sem deixar saudade.
Por isso arriscavam os cobres
Na tava ou numa carpeta.
Quem sabe largando a jeta
Ficariam menos pobres?
Mas, cuê putcha! Até no jogo
Só ganha quem não precisa!
Quem joga a própria camisa,
Pula d´água... cai no fogo!
Ali mesmo no bolicho
Acontecera este fato.
Entre as linhas do relato
Vê-se a velha diferença,
Que, mais do que a gente pensa,
Se repete na memória.
Talvez outros personagens,
Outro céu, outra paisagem...
Mas, no fundo, a mesma história.
Se encontraram por acaso
Num dia de carreirada.
E, como sempre acontece,
O amor, quando aparece,
Não cuida da conseqüência.
Ele - pobre e sem querência,
Ela - filha de estancieiro.
O sonho é mau conselheiro
E a razão não tem valia
Para um coração amante;
É luz da estrela distante
Que morre ao nascer do dia.
Cercado pela milícia
Recebeu voz de prisão!
Seu amante coração
Nem pensou morrer peleando.
Entregou-se... Nada disse
Contestando a acusação.
Foi preso por insolente
A mando do delegado!
Não vê que - desaforado! -
À vista de toda gente,
Esbarrou seu redomão
E, como prova de amor,
Ofereceu uma flor
À filha do seu patrão...
No registro da ocorrência
Ficou assim lavrado:
“ O maula foi degolado
por resistir a prisão.”