HORAS DE MATE
Rodrigo Canani Medeiros

O mundo lá fora
fechado em carrancas,
com rugas na testa,
impõe dia-a-dia
pesados tributos
aos seus inquilinos.
Consome a energia,
retira do tempo
a lenta harmonia
das tardes silentes
e toma de assalto
os raios de sol
que já foram prá todos
nos tempos de antanho.

... e o mate que cevo
me traz a esperança
do verde do campo,
me inspira um sereno
mutismo de prece
e maneia os ponteiros
dos loucos relógios
que giram com pressa
tal qual cataventos
em meio às tormentas.

O corpo reclama
tamanha cobrança
e grita bem alto
seus cantos de guerra.
As veias são lerdas
estradas estreitas
por onde se arrastam
carretas de vida.
Os braços são dores
e dedos existem
apenas prás teclas
que infestam as sombras
da grande cidade.

... e o mate que sorvo
me cala a garganta,
entranha no sangue,
levando o calor
do quente do fogo
pro fundo da alma,
dissolve os espinhos
travados em mim,
liberta meu peito
prá brisa do mato
que ainda se esgueira
por entre as vielas
e ruas tranqüilas,
desperta a consciência
em lúcidos rumos
prás pernas inertes
e então, num repente,
renascem as mãos,
qual broto que estala
do campo queimado.

Mas vozes que ouço
me trazem notícias
das gentes insones,
de falta de amor,
de doença mesquinha
que as vezes parece
a todos atinge,
da grande carreira
que cega as pessoas
com brilhos furtivos
de falsos metais,
e no meio da cancha
viceja interesse,
poder e mentira.
Fenece a amizade,
falece a confiança.

... e o mate que sirvo
carrega consigo
a fé e a verdade
das palmas das mãos,
divide esperanças
de novos caminhos
com dias que exalem
perfumes da infância
e noites que espelhem
todo o bem querer,
oferta prá todos
um naco de alma
e lança na terra
sementes de amor.

Quisera pudesse
esse tanto de gente
sentar para o mate,
em roda do fogo,
sem nada falar,
apenas mirar
no fundo dos olhos
do outro, da outra,
deixando o relógio
seguir o compasso
de seus corações.
A cara do mundo
sorriria por certo
e as rugas severas
virariam aos poucos
caminhos de paz.
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