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LAÇO DE QUATRO TENTOS
Balbino Marques da Rocha
Das madrugadas de lutas,
Quando a raça amanhecia
Quando o Rio Grande nascia,
Lá por mil e setecentos...
O Destino Deus da terra,
Que nas suas rêdes encerra,
A força e o rumo dos ventos,
Na sua urdidura mansa,
Já foi estendendo a trança
De um laço de quatro tentos.
Das chapadas da laguna
Sangue luso-brasileiro,
Tento fidalgo altaneiro,
Sangue de ilhéu açoriano,
Misturou-se ao sangue quente,
Do negro, este rei plangente,
Destronado soberano
Que nos trouxe como herança
A nostálgica lembrança
Do continente Africano.
Este outro tento sangrento,
Do peito escravo humilhado,
Que em tempos idos, alçados
Aos tropéis da liberdade,
Soltava um grito de guerra...
Depois curvado na terra,
Remordido de saudade,
No seu sangue generoso,
Deu-nos o toque formoso
E uma altaneira humildade.
Dos limites imprecisos
Que a guerra avança e recua,
Outro anseio de alma crua
Desceu da Alemanha austera,
E um capacete de aço,
Deu mais um tento para o laço,
No lombo de uma galera,
Veio arrastando a inclemência
Deixando longe a querência,
O teotônio de alma fera.
A juba ruiva do leão,
Como espantalho do abutre,
Eta louro que se nutre
Dos banquetes da coragem,
Trouxe de longe fechado,
Um sangue azul resguardado
Da escória e da mestiçagem,
Para fundí-lo arrogante,
Neste destino gigante,
De um povo de alma selvagem.
E o sangue Mediterrâneo
Do puro berço latino
Tornou-se continentino,
Na pira da imigração,
Na maviosa sinfonia,
Que se aliando a soberbia,
Do prussionismo alemão
Deu impulso e deu alento,
Amarrando o quarto tento,
No laço da formação.
Da argolado pensamento,
O destino trançador,
Foi puxando tento a tento,
Esta raça farroupilha
E o índio, fecho de ouro,
Foi nesta trança de couro,
O botão de uma presilha...
Gaúcho de alma bravia,
Nasceu como a ventania,
Em cima de uma coxilha.
Como uma flâmula ao vento,
Despontando ao sol do dia,
Esta raça que nascia,
No Rio Grande, a terra crua,
Fez da lança o rude esteio,
De palco fez o rodeio
De brasão a testa nua,
De teto a copa do umbu,
De armadura o couro cru
De norte a cacimba de freio
Do cavalo, a inspiração,
Da crença xucra, o destino,
Abarbarado teatino,
Mais teimoso que um gavião,
Do arreio fez o seu trono,
Da presença, um rude entono
De monarquia a amplidão...
Foi mais solto que o vento,
Mais livre que o pensamento,
Mais sem dono que do que o chão.
E este é o sangue que nós
temos...
Dolente, lânguido e forte
Mais rijo que o vento norte,
Mais brando do que os lamentos,
Mais impetuosos que um potro,
Nós herdamos dum e doutro
As tristezas e os alentos,
Neste Brasil que é uma enchilha,
Nós somos como a presilha
De um laço de quatro tentos.
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