MEU PALA DE SEDA
Renê da Silva Nunes

Meu velho pala de seda
Todo enfeitado de franjas
Ao esvoaçar tu te esbanja
Com graça e desassombro
Quando te sinto nos ombros
De perfume me respingo
E alço a perna no pingo
Que sai atirando o freio
E vou dar o meu passeio
Em um dia de domingo.

Ainda me lembro, velho pala
Dos fandangos que dancei
E os entreveros que enfrentei
Contigo envolto no braço
Defendi muito pranchaço
Contigo meu velho pala
Pois num aperto de sala
Não brinco nem facilito
E até me saio bonito
Mesmo num pequeno espaço.

Meu pala eu te venero
Como relíquia sagrada
Em festas e carreiradas
Me foste de serventia
Pois quando eu te vestia
Com garbo e altivez
Fiz isto mais de uma vez
Bem pachola e entonado
Com a chinoca ao lado
Muito atencioso e cortês.

Quantas recordações
Meu velho pala de lei
Das vezes que te levei
Nas gauderiadas secretas
E as chinocas prediletas
Que contigo agasalhava
Quando ao chão me esparramava
Fazendo cama de ti
E num bárbaro frenesi
Muita china acariciava.

E depois dessas carícias
Voltava alegre pra o rancho
Pendurava o pala no gancho
E ficava admirando
Saudoso recordando
Do que já ficou pra trás
O meu tempo de rapaz
No aconchego do galpão
Tomando um bom chimarrão
Com a peonada e o capataz.


Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
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