O TROPEIRO
Osmar Antonio do Vale Ransolin
(Fraiburgo - Santa Catarina)

 .

Lá vem o tropeiro

Tropel na estrada

Da rica mulada

Que traz o cargueiro.

Vem pelo entreveiro

De mato e picada

Fazendo a tropeada

Que ofício mais duro

Não vê o futuro

Somente o passado

De estado e em estado

Sem porto seguro.

 

Vai pelas andanças

De estrada e pó

Mas nunca anda só

Pelas vizinhanças

Lhe seguem crianças

Os cães e o gado.

Destino mapeado

De sonhos de prendas

Por chitas e rendas

Em bailes campeiros

E às vezes potreiros

De alguma fazenda.

 

Já foi-se no tempo

Das lidas de outrora

Calçado de esporas

E poncho ao vento

Dormindo ao relento

Acordando na aurora

Pelo campo afora

E noite adentro

Pisar lamacento

Nas chuvas de maio

No lombo do baio

Num triste lamento.
 

O baio crioulo

De pêlo encerado

Vai bem encilhado

É mais um consolo.

No chão de tijolo

De trote picado

Vem bem entonado

Fazendo o percurso

Batizaram de "Urso"

Parceiro da vida

Instrumento da lida

Ação e recurso.

 

Por todos os dias

Se vai o tropeiro

Caminho – carreiro

Tem suas manias

Na lenta agonia

De um mundo inteiro

Segue o roteiro

Do seu troperear

O sonho a embalar

A velha ambição

De um dia então

Não ir - nem voltar.

 

Os guri e a china

Deixou na tapera

Na longa espera

Mas que triste sina!

Já nem mais atina

Quantas primaveras

O tempo tempera

No lombo do clima

Seguindo a rima

Por quem lhe venera

Se é homem ou fera

Na amarga vindima.

 

Me igualo ao tropeiro

Nos tempos de agora

Também vou embora

Buscando dinheiro

No ofício campeiro

De vir e voltar,

Pois sei que "chegar"

Pra que tem onde ir

Vou admitir

Só neste contexto

Que é mais um pretexto

Pra gente partir...          

 

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