Toca o fole, bate o ferro,
que tem cor de por-do-sol.
O ferreiro vai batendo...,
batendo na sorte maula,
que não lhe deu outra escolha,
pois foi criado ferreiro,
com ferro no coração.
Que ironia, Senhor,
é a vida deste pobre!
Bate o ferro por uns cobres,
que não cobrem seu sustento.
A mulher lava pra fora
e planta horta “quando dá”.
O piá faz changa no povo,
pra comprar tamanco novo
e ir na escola estudar.
Ferra a roda da carreta,
bate a enxada e o machado.
Bate a ponteira do arado
que de lavrar se gastou.
Solda o freio do campeiro
que na doma se quebrou.
E faz a trempe de ferro
que o patrão lhe encomendou.
Passa o dia e chega a noite
e não tem hora pra parar,
pois prometeu terminar
o serviço que assumiu.
E só termina a jornada
depois que alua subiu.
Cansado deita na sala
e se tapa com o velho pala,
pois não deseja acordar
a china que já dormiu.
O sono lhe traz os sonhos...
Que sonharia o ferreiro?
Será que sonha ser rico
e poderoso estancieiro?
Ou um comerciante abastado
contando muito dinheiro?
Pois seus sonhos são humildes,
quer pouco pra ser feliz:
Sonha com um fole novo
que o velho já está furado,
e com três barras de ferro
pra fabricar dois arados.
Canta o galo no poleiro
mas não acorda o ferreiro
que a muito já está mateando.
E solito matutando,
como vai fazer a marca
que o coronel desenhou.
Larga a cuia, acende a forja
e recomeça a labuta.
É mais um dia de luta,
em honra a Nosso Senhor!
-Guri me traz mais carvão,
Depois me alcança a marreta,
que o ferro já está no ponto.
“O velho galpão pendido,
que agasalha a ferraria,
o fole, a forja, a bigorna,
a talhadeira, a tenaz.
A marreta que sobe e desce
moldando o ferro aquecido:”
Este é um retrato querido
que mora em minha lembrança,
desde os tempos de criança.
E aquele homem de ferro
com orgulho eu repito:
Este ferreiro bendito
que da minha idéia não sai,
pois não consigo esquecer,
sinto-me honrado em dizer,
Era de fato..., meu pai!
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