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UM PALIMPSESTO PARA OS QUE FICARAM

Adriano Medeiros

 

No campo é assim...

Quem fica vive,

Quem não fica vive na saudade.

 

É mais um dia que vem de manso,

A manhã vem pincelando novos matizes,

Um sabiá cantador se apruma na laranjeira,

O galo campeia o canto de contra-volta.

Um cusco coleira chuleando o ritual do mate,

Guardião reiúno da escolta campeira.

 

Chuva de manso com gana de ser garoa...

Outono apresado, cruzando na ventania,

Um mate que vai e outro que vem,

Um tajã alerta, indica o inicio da lida.

 

Fecho mais um palheiro a preceito,

Aprumo de jeito os arreios,

Quem vive da lida sabe o destino.

 

Vou direto ao saleiro,

E sigo no rastro de uma vaca pampa

Que se enfurnou no pajonal,

Coisa linda,

A perícia de tirar do banhado,

Um touro acalambrado!

 

Na volta do pingo,

A vida se forja como fio de adaga,

Moldado a capricho

No vai e vem de uma chaira,

E na pedra da vida a alma se esvai.

 

É fim de tarde na querência...

 

No galpão...

Sob um céu da santa-fé,

Golpeio um gole de pura,

Aprumo o baeta no catre,

Companheiro de sono e saudade.

 

Um mate depois do outro,

Afirma-se nas retinas

À distância povoeira,

É gana de seguir o rumo de outros,

É medo de ter a mesma sina estradeira.

 

De moirão a moirão,

É assim que se mede uma saudade,

Resta aos que ficam, pontear no violão,

Indagações ao que partiram,

Por onde andarão?

 

Que magia é esta,

De chamar o campeiro

Ao rumo da estrada?

 

Qual sina...

De viver fora do pago?

 

Como entender

O sentido da vida

Fora do rincão?

 

Viver com a saudade,

Espichada como bordão de guitarra.

 

No sem fim das horas

Vejo singrar a conta das partidas,

Não vejo futuro                    

Na girândola povoeira,

Sim! Sou remanescente,

De uma estirpe campeira.

 

O que esperar de um mundo diferente,

Embretado entre becos de concreto,

Ser mais um nas changas,

Ser menos um na pampa.

 

Falo de boa boca...

Fui e voltei,

Sofri calado,

Como deserdado da sorte,

A quem é da campanha

A vida não reserva bons ventos

E nem aponta um norte.

 

Se o campo vai mal,

A cidade vai pior.

 

Dei cara-volta ao meu destino,

E, na cancha reta da saudade,

Cruzei desafiando a vida,

Não quero viver desgarrado,

Quero ser sim, senhor do meu tempo.

 

Por vaqueano!

Sigo “chiflando” um rumo,

Cruzando a senda do meu futuro,

Aqui sou parte dos meus,

Nunca mais vou cruzar

A cancela do meu destino.

 

Prefiro viver no traço marcado,

Herdado dos meus ancestrais,

E não ser mais um perdido e deserdado,

Aqui sou um cerne puro de campo,

Lá sou mais um teatino!

 


Glossário:
Palimpsesto:
Pergaminho, documento ou carta que registra o viver de um povo; nome utilizado para os registros feitos pelas populações antigas como, Egípcios, Hebreus e outros; descrição feita pelo historiador e arqueólogo José Alberione dos Reis.

Chiflando: Palavra de origem espanhola, significa canto de pássaro ou assovio, dependendo do contexto da frase.

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Galpão da Poesia Crioula - Santa Maria/RS
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