Mistura de índio, de
africano e luso,
ponta de lança e pata de cavalo
usei para marcar o chão que cruzo
e os limites da língua na qual falo.
A lei e ferro impus também o uso
deste idioma em que vivo por amá-lo
ao que veio depois, quase de intruso,
fugindo à fome que ia devorá-lo.
De gaúcho me chamam. Não me engano
co’a força do meu verbo
e do meu braço,
pois ao traçar o mapa americano
Eu cantava no idioma lusitano
e arrastava canhões com o meu laço
gritando palavrões em castelhano.
Notas do Autor:
Verso 1º – Referência aos três elementos
formadores da nacionalidade brasileira, presentes em todas
as tropas portuguesas envolvidas nas guerras de limites com
as colônias espanholas e os estados delas originados.
Verso 2º – Aproveitamento de frase famosa do
tribuno gaúcho João Neves da Fontoura, membro da Academia
Brasileira de Letras, segundo o qual as fronteiras do Rio
Grande do Sul foram traçadas a ponta de lança e pata de
cavalo.
Verso 5º – Referência à obrigatoriedade do
ensino da língua portuguesa em todas as escolas do
território brasileiro, introduzida a partir do governo do
sul-rio-grandense Getúlio Vargas, durante o chamado Estado
Novo.
Verso 8º – Está historicamente comprovado que
a maioria dos imigrantes europeus que vieram para o Brasil
durante os séculos XIX e XX fugiam à crise econômica em seus
países de origem.
Verso 13º – Acostumados ao uso do laço em
suas lidas diárias, os gaúchos, muitas vezes, empregaram-no
como arma, inclusive, laçando canhões adversários.
Verso 14º – Muitas interjeições usadas na
linguagem popular são originadas de palavrões espanhóis.
Exemplo “A La pucha”, de “A la puta que te parió”.